SBTM: 25 ANOS DE TEOLOGIA MORAL
Fr. Márcio A. Couto o.p.
Nos dez primeiros encontros dos Professores de Teologia Moral predominou o tema da Moral Fundamental, com exceção de dois encontros mais temáticos: o terceiro sobre Sociedade e Família no Contexto Brasileiro (mas que incluiu um tema de fundamentação da Moral na ótica da Teologia da Libertação) e o nono, em torno da “Violência sobre a Mulher empobrecida”. Nesses oito (ou nove) primeiros encontros se procurou buscar os fundamentos da Teologia Moral:
a) em si mesmos (2º sobre Teol. Moral Fundamental e Experiência),
b) em relação com o magistério (1º Teol. Moral e Magistério),
c) na ótica renovadora da Teologia da Libertação (3º A inserção da Teol. Moral no momento teológico atual; 4º TdL na renovação da Teol. Moral; 8º Fundamentação da Moral Libertadora),
d) no questionamento da nossa realidade (5º Teol. Moral questionada por nossa realidade),
e) na ótica de uma realidade mais ampla da América Latina (10º Articulação da Teol. Moral na Am. Latina).
O tema do 11º encontro (I Congresso) faz a ponte entre esse primeiro momento e o segundo: “Reflexões éticas a partir da realidade eclesial e teológica da AL”. A partir do 12º encontro os temas morais foram enfocados numa perspectiva de confronto com outros temas e numa busca de articulação interdisciplinar. Assim, o 12º encontro foi sobre “Ética e Economia”, o 13º “Ética e Libertação”, o 14º Teol. Moral e Culturas (II Congresso), o 17º “Ética na relação Igreja e Sociedade na AL” (III Congresso), o 18º “Ética e os excluídos”, o 20º “Ética e Direito” (IV Congresso), o 21º “Ética e Cidade”; o 22º “Ética e Direitos Humanos”, o 24º “Ética e Política”. O 15º encontro teve como tema “Os novos interlocutores da Teol. Moral”, o 16º foi um encontro em conjunto com a SOTER sobre o Documento de Santo Domingo, e o 23º foi um balanço da Teol. Moral na passagem do Milênio.
É visível a dominante social na escolha dos temas e na sua abordagem. Temos um leque de temas do que poderíamos chamar de Moral Social: Economia, Libertação, Cultura, Sociedade, Excluídos, Direito, Cidade, Direitos Humanos, Política.
O método de abordagem dos temas procurou sempre ser interdisciplinar, convidando-se para fazer exposições pessoas ligadas às áreas abordadas. O trabalho propriamente interdisciplinar ficou por conta dos debates em grupos e dos relatórios oriundos das discussões.
A produção do que foi exposto e das discussões foi publicado nos meios acadêmicos normais. Mas muito do que se debateu ainda não foi publicado, esperando uma oportunidade que talvez em breve venha a acontecer.
Fazendo memória de alguns momentos importantes dessa trajetória não poderíamos deixar de lembrar do primeiro encontro que discutiu três temas apresentados respectivamente por Pe. Márcio Fabri dos Anjos “Esterilização e avaliação moral: um problema metodológico”; Fr. Antonio Moser “O problema demográfico e as esperanças de um mundo novo”; Pe. Hubert Lepargneur “O descompasso da teoria com a prática: uma indagação nas raízes da moral”. Dois desses três textos fundadores da S.B.T.M. podem ser encontrados: o do Pe. Lepargneur com o mesmo título na coleção “Cadernos de Teologia e Pastoral, v. 14” (Petrópolis: Vozes, 1979); o do Moser, com o mesmo título foi também publicado pela Ed. Vozes em 1978 (68p.). O texto do Pe. Márcio Fabri, ele mesmo poderá indicar onde se encontra.
O segundo encontro procurou fazer um mapeamento da Teologia Moral nos diversos centros de teologia do Brasil. Levantaram-se as dificuldades encontradas na apresentação de uma moral renovada: esta não se renova porque está presa a um clichê que deve ser preenchido com a realidade. A renovação seria apenas uma reforma intra-sistêmica (e o parâmetro era a Europa, a Igreja), enquanto que a TdL responde mais e será preciso andar nessa direção, dizia fr. A. Moser em 1978. A moral tem de partir da realidade e usar a mediação sócio-analítica. Toda renovação não passou de uma reforma. Outro questionamento vinha de fr. Bernardino Leers que dizia que era preciso estar atento ao povo. Nós não aceitamos que o povo tenha um quadro moral diferente do nosso. “Nós projetamos o que temos na cuca na cuca do povo”. Constatava-se, então, que apesar de muitos moralistas tratarem os mesmos temas – consciência, lei, normas – não o faziam do mesmo modo. Por que? Porque havia desaparecido o alinhamento escolástico de outrora. A introdução das ciências sociais nos fez percorrer caminhos diferentes, porque as correntes de interpretação da realidade são diferentes. O saber é fracionado e nós não temos mais uma unidade de tratamento dos mesmos problemas. Naquele momento nos perguntávamos: quando a gente se atreve a entrar num campo que não é o da teologia propriamente dita, será que estamos preparados ou não arriscamos assimilar superficialmente os dados das ciências e, então, praticar a “picaretagem” num universo que foge ao nosso domínio, que é a interdisciplinariedade entre as ciências do social e a teologia?
Com essas interrogações fomos para o terceiro encontro em 1979. Lembrando que o objetivo dos encontros era primeiramente promover o intercâmbio entre os moralistas, recordamos que o primeiro encontro procurou situar as grandes linhas da Teol. Moral e as dificuldades atuais do magistério, o segundo, buscou fazer um planejamento da Teologia Moral Especial, especialmente a Fundamental, nesse terceiro encontro nos deparamos com dois temas: 1) A inserção da Teologia Moral no momento teológico atual; 2) O estudo do documento preparatório do Sínodo dos Bispos de 80 (O papel da família cristã no mundo de hoje). O Pe. Alberto Antoniazzi nos ajudou a refletir apresentando o texto “Como situar a Teologia Moral diante e/ou dentro da TdL e de outras correntes teológicas atuais”. Propôs três questões para o debate: 1ª) Como eu vejo a Teol. Moral no contexto da TdL? 2ª) Colocar alguma experiência feita no sentido de renovar a Teol. Moral com vistas a uma articulação e uma inserção mais profunda da Teol. Moral no contexto teológico atual; 3ª) O que é preciso para se ter condições de articular melhor a nossa teologia com o contexto atual? Depois, fr. Antonio Moser apresentou o texto de Clodovis Boff "Notas elementares para uma ética política” constituído de quatro partes: I) Introdução. A questão da ética, subdividido em três tópicos: 1. A desmoralização da ética, 2. Quando a técnica substitui a ética, 3. A ubiqüidade da moral; II) Ética política, subdividido em sete tópicos: 1. Política: nova região ética, 2. Ética e história, 3. As duas dimensões da ética, 4. O sujeito da ética – colocações iniciais, 5. A representação como mediação entre pessoa e sociedade, 6. A imputabilidade ética, 7. A dialética pessoa-sociedade na história; III) Algumas aplicações: 1. Ética na mudança, 2. Ética do ínterim, 3. Ética de coar mosquito e engolir camelo; IV) Algumas conseqüências práticas: 1. Ciência e consciência, 2. Ética política e comunidade eclesial, 3. Moralismo político. As questões para discussão foram: 1) É verdade que é a história concreta que determina a Moral enquanto codificação (expressão) e prática (realização), mas é a Moral que determina a história enquanto história (não enquanto tal história)? 2) Como se articula a responsabilidade moral: pessoa ou grupo social?
São Paulo, 14 de dezembro de 2001.
O quarto encontro teve como assessor o Pe. Oscar Beozzo que apresentou “Temas éticos presentes na História da Igreja na AL”. Ele salientou temas que não foram considerados éticos na tradição da história da moral mas que se mostraram fundamentais em momentos decisivos da história da Igreja. Primeiro ele abordou a “Ética de justificação do sistema colonial” do século XVI. A questão de base que se fazia era se era ético apropriar-se da propriedade dos índios, escravizá-los? Devia-se estabelecer sua liberdade ou escravidão? Beozzo percorreu os textos invocados pelos autores desse tempo, desde Aristóteles, Santo Tomás, Juan Maior, Juan Lopes de Palacios Rubios, Gines de Sepulveda e Bartolomeu de Las Casas, mostrando os atores e suas discussões. Segundo, ele abordou a ética dentro da sociedade escravocrata.
O quinto encontro (1981) em Campos do Jordão, teve como assessores o Prof. Riolando Azzi e o Pe. Francisco Taborda. O primeiro apresentou o tema “Moral católica e sociedade colonial”, o segundo “Sociedade e Escola: tentativa de interpretação teológica do papel da escola na sociedade”.
O sexto encontro (1982) no Rio de Janeiro, propôs uma metodologia diferente: trabalhar cada dia em grupos, seguido de plenário, em torno de um tema comum. Os temas foram: liberdade, consciência e pecado. O objetivo do grupo era dar um salto qualitativo de uma mera assimilação da problemática européia da moral para uma abordagem dos problemas morais por nós mesmos. O desafio era começar a criar algo entre nós. E o grupo tinha consciência de sua caminha o suficiente para assumir uma perspectiva libertadora. Isso significa que o problema agora é de se criar laços tais de entrosamento que possibilitem o surgimento de uma reflexão moral deixando transparecer os verdadeiros problemas que enfrentamos no dia a dia. A nossa reflexão quer ser uma reflexão sobre a própria realidade.
O sétimo encontro (1983) realizado em Salvador, teve como tema “Estratégia para mudar o ethos social brasileiro”. O Pe. Antonio Silva apresentou o tema “A ação do moralista e seu relacionamento com o povo”, distinguindo três espécies de moralistas: 1º) o intelectual autoridade, cujo conhecimento objetivo o leva ao povo como seu guia, frequentemente ignorando os problemas reais do povo; 2º) o intelectual-orgânico, fruto das filosofias da praxis, cujo objetivo é a mudança da situação humana e social, medindo-se pela sua capacidade de transformar o mundo para melhor; 3º) o intelectual ouvinte, cujo acento está em compreender o que está sendo vivido, pautando-se para isso no método Paulo Freire. O segundo tema foi apresentado por fr. Antonio Moser “Conscientização e Mudança do Ethos Social Brasileiro”. Dentro do clima atual de mudanças em movimentos de conscientização se dirigem para dois lados antagônicos. Enquanto uns querem a transformação radical revolucionária da sociedade, outros procuram integrar as massas dentro do sistema dominante numa linha reformista. Em todos os modelos de conscientização há certos pressupostos comuns: as mudanças podem ser projetadas dentro do sistema existente ou contra ele; os agentes da transformação devem ser ou a elite ou o povo; a educação tem de reproduzir a prática social ou criar uma nova sociedade. O terceiro tema foi apresentado por Pe. Hubert Lepargneur “Poder, consciência e mudança social”, lembrando que na perspectiva ética a pessoa é responsável na medida em que justifica seus atos e reconhece seus erros e os erros da comunidade com a qual ela é solidária. No mundo atual existe por todo lado um divórcio entre teoria e prática que supõe a necessidade de conversão do coração. Na realidade brasileira, especialmente a partir de 64, a crise mais profunda é de ordem ética.
O oitavo encontro (1984) se realizou em Messejana (Fortaleza, Ceará) e o tema foi “Fundamentação da Moral Libertadora”. Fr. Bernardino Leers apresentou o tema “Moralistas e Magistério”. O dr. Vandick Ponte, médico psiquiatra, falou sobre “Dependência, inconsciente e moral”. Fr. Antonio Moser apresentou o texto “Teologia Moral e ciências humanas”. Pe. Nicola Masi apresentou o tema “Projeto ´Reino` passa através de mediações e concretizações históricas”. Apresentação do texto do Pe. Lepargneur “Compêndio sobre emergência da consciência moral” por Jan Gerard Ter Reegen. O prof. Diathay Bezerra de Menezes, sociólogo, fez uma conferência sobre o tema “Condicionamentos sociológicos do ato moral”. Eleição da nova diretoria da Associação de moralistas: presidente (Márcio Fabri), vice-presidente (Antonio Pinto da Sailva), secretário e tesoureiro (Alquermes Valvassori), suplentes (José Gonçalves da Silva e Antonio Moser).
O nono encontro (1985) realizado em Brasília, teve como tema “A violência sobre a mulher empobrecida”. Cada participante se havia comprometido em elaborar texto sucinto sobre o que mulheres de sua região dizem sobre sua situação e quais os problemas principais o participante percebe em relação ao tema. Hugo D´Ans apresentou “Mulher e Prostituição”. Barruel de Lagenest falou sobre “Mulher, Família e estrutura social”. Márcio Fabri apresentou “Mulher Negra”. Rose Marie Muraro falou sobre “Sexualidade e classes sociais”. Zilda Fernandes Ribeiro fez uma conferência sobre o “Papel da Mulher como Pessoa nos ministérios”. Ana Maria Tepedino falou sobre “A dimensão da dominação simbólica a partir do problema do pecado”. José Comblin fez uma conferência sobre o “Significado do Conc. Vaticano II”. Janis Jordan falou sobre a “Libertação da Mulher hoje na Igreja e na sociedade: uma aproximação teológico-moral”.